sábado, 17 de janeiro de 2015

Monografia Conclusão : A Ansiedade e seus Transtornos na Dança da Vida




INTERNATIONAL BIOCENTRIC FOUNDATION

Escuela de Biodanza Sistema Rolando Toro : Escola Gaúcha de Biodança EGB



 










TESIS PARA OBTENCIÓN DE TÍTULO
“PROFESOR DE BIODANZA”





A ANSIEDADE E SEUS TRANSTORNOS NA DANÇA DA VIDA


Grace Aparecida Gomes

 



 Professores Supervisores:

  Feliciano Flores
  Rudimar Merlo
  Terezinha Flores
 

























Porto Alegre, setembro de 2014.



SUMÁRIO


AGRADECIMENTOS................................................................................................................   03

INTRODUÇÃO .......................................................................................................................    04

1- CONTEXTUALIZAÇÃO DO PROJETO DE INICIAÇÃO À BIODANÇA .....................................    05
1.1               – Plantão Psicológico ...............................................................................................   05
1.2               – Grupos Terapêuticos.............................................................................................   06
a)                  Grupo de Mútua Ajuda ............................................................................................   07
b)                 Grupo Sem Medo de Sentir Medo para Portadores de Transtorno de Pânico .......    08
c)                  Grupo Melhor é Possível para Portadores de Transtorno Obsessivo Compulsivo ..    08
d)                 Grupo em Paz com a Balança ...................................................................................   08
e)                 Grupo de Yoga ..........................................................................................................   09
f)                   Grupo de Recursos Terapêuticos ..............................................................................   09

2                    – O PROCESSO DE TRANSFORMAÇÃO DO GRUPO ...................................................   12
2.1               – Os Indicativos........................................................................................................    12
2.2               – As Reais Necessidades .........................................................................................     13
2.3               – A Subjetividade ....................................................................................................     13
2.4               – A Escolha do Método ...........................................................................................     13
2.5               – A Preparação .......................................................................................................      14
2.6               – A aula Inaugural ...................................................................................................     15
2.7               – O  Encerramento da Aula .....................................................................................     18
2.8               – As Possibilidades ..................................................................................................     19

3                    – OS PARTICIPANTES DO GRUPO ............................................................................     20

4                    – OS EFEITOS DA SESSÃO DE BIODANÇA NOS PARTICIPANTES ...............................    24
4.1               – Os Efeitos Benéficos .............................................................................................    24
4.2               – A vinculação e Afetividade ...................................................................................    24
4.3               – O Processo de Reaprendizagem ...........................................................................    25
4.4               – Os Desafios ...........................................................................................................    27
4.5               – As Evidências na Vida Cotidiana ...........................................................................    30
4.6               – A Metodologia Utilizada .......................................................................................    33

5                    – UMA TECITURA VIVENCIAL ....................................................................................   35

CONSIDERAÇÕES FINAIS .......................................................................................................... 48

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................................................ 50

ANEXOS .................................................................................................................................... 53








AGRADECIMENTOS


Agradeço ao Universo por haver conspirado em colocar uma faixa promocional no meu caminho: “Biodança: A Dança da Vida” Venha conhecer! Especialmente ao João Dutra por haver me iniciado na poética do encontro Humano, meu primeiro facilitador no Sistema Biodança, em abril de 2007.
Agradeço aos meus filhos Álan e Arthur, pois no processo de formação, asseguraram minha dança de liberdade rumo ao conhecimento e desenvolvimento pessoal, pois sempre que voltei ao “nosso ninho” fui recebida com amorosidade e compreensão.
Agradeço a minha querida sobrinha Bruna, que esteve presente organizando e oferecendo suporte quando os rapazes não tinham disponibilidade. E principalmente por sua benevolência, quando por motivos de encontros ou seminários não compareci em seus aniversários.
Agradeço a todos os meus familiares que foram indulgentes nas minhas ausências, encontros, aniversários e comemorações, por conta da formação.
Agradeço aos meus amigos e amores que foram condescendentes durante o período de viagens e afastamentos.
 Agradeço a todos os meus companheiros desta viagem rumo ao autoconhecimento e de formação; aos facilitadores; didatas, especificamente ao Rudimar,  Terezinha e Feliciano Flores, meus supervisores; Dorli que me religou à transcendência e muito especialmente a Carmen que me chamou para esta linda Dança da Vida!
Agradeço de modo especial, aos participantes do grupo de Biodança na AportaRS, que confiaram na proposta de trabalho permitindo a elaboração de estudo do projeto em questão.

“...Todos me impregnaram de suas vidas águas
como se eu fosse uma esponja.
Ficamos inseparáveis.
Bastou para isso que nos cruzássemos
numa nesga do espaço
E num instante do tempo!”
(Pedro Nava)




INTRODUÇÃO

A presente Monografia presta-se ao trabalho de conclusão do curso para facilitador de Biodança, que foi realizado junto a Escola Gaúcha de Biodança, onde pretendo relatar minha experiência com um grupo de Portadores de Transtornos de Ansiedade, assim denominado por funcionar na AportaRS, Associação de Amigos Familiares e Portadores de Transtornos de Ansiedade.
 O relato apresentará uma evolução sobre o sentido de pertencimento de seus integrantes, inicialmente como pacientes, dentro da proposta de atendimento em psicoterapia de grupo, até a transformação do mesmo em  grupo de Biodança.
Considero oportuna a contextualização de aspectos do adoecimento psíquico, passíveis de acompanhamento psicológico ou psiquiátrico, onde em alguns segmentos é considerado como sintomas de psicopatologia, e para tal propõe-se tratamento onde,  não raramente, o sujeito torna-se um paciente mediante seu processo na busca do autoconhecimento e de reposicionamento nas  relações humanas.
Pretendo discorrer, além da experiência com os participantes do grupo, sobre a amizade, as relações humanas e  sentido para a vida levando a uma ligação entre as linhas de vivência propostas por Rolando Toro no método criado pelo mesmo, de Biodanza, o que nada mais  é, do que a dança da vida no contexto social, familiar e laboral em que vivemos.
Esta metamorfose também fez parte de minha história pessoal e profissional, considerando que a função de psicoterapeuta de grupos não é similar a de facilitador de Biodança. Dentro deste processo houve o entrelaçamento vivencial da pessoa que exerce atividade como psicoterapeuta, auxiliando e orientando pessoas, dentro da abordagem Humanista. Assim como as transformações em sua vida, nas relações interpessoais e na sua  forma de trabalho com grupos  ou na psicoterapia individual.
E por fim, considero significativa a contextualização dos rumos que o movimento Biodança me levou a percorrer, trazendo-a ao conhecimento de pessoas de diferentes faixas etárias, setores e meios socioculturais. Referendando a proposta de trabalho vivencial e propondo uma melhor capacidade integradora aos envolvidos nesse processo gradual de apropriação e potencialização de significativas propostas,  aliando música e movimento além do processo exclusivo da fala, característico nos processos psicológicos.




1- CONTEXTUALIZAÇÃO DO PROJETO DE INICIAÇÃO À BIODANÇA

A APORTA-RS Associação de Amigos, Familiares e Portadores de Transtornos de Ansiedade é uma Organização Não Governamental, fundada em dezembro de 2004, com sede em Porto Alegre, teve seu objeto de trabalho inspirado na APORTA Associação de Portadores de Transtornos de Ansiedade, que funciona junto ao Hospital das Clínicas em São Paulo.
  Sua Missão é preservar e prevenir a Saúde Mental com a consequente melhora na qualidade de vida dos portadores de Transtornos de Ansiedade e de seus familiares, que também sofrem com os sintomas da doença, oferecendo atendimento profissional, multidisciplinar, ético e humanitário. Tem como valores ética, respeito e valorização do ser humano, solidariedade, voluntariado, responsabilidade social e competência.
O trabalho da Associação é voltado a pessoas que sofrem com Transtornos de Ansiedade, dentro da proposta de atendimento gratuito por profissionais voluntários da Psicologia, Nutrição, Psiquiatria, Terapia de Família e Yoga. Os serviços prestados são atendimentos individuais, na modalidade de Plantão Psicológico e terapia de grupo com enfoques psicoterapêuticos de diferentes abordagens. (Anexo I)

1.1 - Plantão Psicológico
   A possibilidade de atendimentos psicológicos na modalidade de Plantão foi influenciada pelo método empregado na Abordagem Centrada na Pessoa, psicologia com enfoque Humanista que teve seu trabalho desenvolvido por Carl Rogers na década de sessenta, inicialmente nos Estados Unidos. Segundo Wood (1999),o contato com este serviço auxilia as pessoas a lidarem com as dificuldades cotidianas da vida, não os tratando categoricamente como problemas que necessitem um tratamento psiquiátrico.
    Embasando o pensamento de Rogers (1987) que observava ao perceber a complexidade da vida humana, que se a olharmos com serenidade, reconheceremos que num pequeno espaço temporal, aproximadamente de uma hora, não conseguiremos reorganizar a vida de uma pessoa. Mas neste pequeno espaço de tempo poderemos oferecer uma ajuda preciosa, de esclarecimentos, permitindo que o atendido exprima seus problemas e sentimentos de forma livre, deixando-o reconhecer as questões que enfrenta.
   Este tipo de escuta possibilita atendimentos a comunidades menos favorecidas economicamente, com menor margem de informações e pequeno acesso a serviços mais especializados em saúde mental.
   Após o atendimento ou acolhimento realizado pelo psicólogo plantonista, quando é preenchido um prontuário com as principais informações sobre o estado de saúde e outras informações do atendido (Anexo II), é realizado encaminhamento aos grupos ou grupo que seja mais adequado as suas necessidades.

1.2 - Grupos terapêuticos
  A psicoterapia de grupo, segundo Neto (2009) remonta desde o século passado, foi empregada por diferentes profissionais para tratar problemas emocionais em diversas situações sociais, culturais ou de adoecimento físico, esse autor apresenta um breve enfoque no psicodrama de Moreno, onde com técnicas dramáticas, representando o cotidiano, oferece suporte para surtir o efeito esperado na interação grupal.
   Os grupos terapêuticos têm sido estudados e categorizados por diversos autores, dentre eles Bion que observa no indivíduo ou grupo a necessidade de continente, assim como Zimerman (1997), referenda que no contingente de necessidades, angústias, ansiedades e defesas há a representação, desde a infância desse contingente expressado na figura materna, que acolhe, codifica e dá sentido às experiências vividas.  Ao longo da vida esta atividade necessita de outras representações que exerçam a mesma função, dentre elas o modelo de identificação, pois ainda  segundo aquele autor, não é unicamente o grupoterapeuta que exerce este papel, os próprios pacientes, também servem como modelos, uns para os outros, de determinadas situações.
  A psicologia Social, considerando suas limitações em recursos financeiros, tem utilizado a psicoterapia de grupos, numa forma de abarcar um número maior de pessoas em sofrimento psíquico, num menor espaço de tempo. Compreende-se a prática desta modalidade em psicologia, que se debruça sobre as interações humanas observando que, segundo Rodrigues (2000), vivemos em constante relação com as outras pessoas e seu objetivo principal é o indivíduo em sociedade.
Osório (1997) aponta que uma das funções primordiais dos grupos humanos é justamente dar sustentação à fragilidade do ser humano nas vicissitudes deste inter-relacionamento vivencial.
Considerando estes fundamentos, os Grupos são distribuídos dentro de diferentes abordagens terapêuticas, contemplando assim, as especificidades de cada situação encontradas na entrevista inicial, quando o indicativo é um acompanhamento efetivo, no caso de haver a constatação de um sofrimento psíquico que se enquadre na atividade principal da Associação.
   Dentro desta perspectiva, quando é constatado o Transtorno de Ansiedade, propriamente dito, que segundo o DSM-IV (2002) compreende o Transtorno de Pânico, Agorafobia, Fobia Específica, Fobia Social, Transtorno Obsessivo Compulsivo, Transtorno do Estresse Pós Traumático, Transtorno de Estresse Agudo e Transtorno de Ansiedade Generalizada, que serão mais bem especificados a seguir, os associados são encaminhados ao atendimento, com encontros semanais coordenados por profissional  capacitado.
   O coordenador do grupo acolhe o novo participante através do encaminhamento realizado pelo colega que o atendeu e após sua adesão ao acompanhamento, o relaciona em lista de presenças  (anexo III) que é controlada semanalmente, além de fazer anotações no prontuário sobre seu desenvolvimento e comparecimento ao grupo.

a)Grupos de Mútua Ajuda
   Compreende dois grupos com atendimentos semanais, um com enfoque na psicanálise, uma técnica de atendimento grupal que tem sua finalidade voltada ao insight, segundo Zimerman (1997), é destinada a mudanças caracterológicas, ou que pode se limitar a benefícios terapêuticos com o esbatimento de algum sintoma, objetivando a manutenção do equilíbrio emocional, ou ainda uma melhor adaptação nas relações humanas, enfocadas na relação grupal.
“Por insight podemos conceituar que se trata do ato ou o resultado de alcançar a íntima ou oculta natureza das coisas ou de percebê-las de uma maneira intuitiva. É um termo que começou a ser utilizado na psicanálise, por Freud desde o início do século XX, para indicar o conhecimento, pelo paciente, de que os sintomas de sua doença ou atitudes são situações decorrentes de processos inconscientes dos quais não possui algum controle.” (Brenner, 1987. p125)

  O outro grupo trabalha com enfoque na Terapia Cognitivo Comportamental, que se baseia no modelo cognitivo, explorando a hipótese de que as emoções e o comportamento decorrente das mesmas são influenciados pela percepção dos eventos. O que determina a maneira como nos sentimos e nos comportamos é a forma como pensamos sobre os mesmos. No Modelo de Beck, segundo Caminha (2003), este método de tratamento cognitivo comportamental indica que os transtornos psicológicos decorrem do modo distorcido ou disfuncional de perceber os fatos, e esta distorção afeta o humor e o comportamento.
   Este método psicoterapêutico compreende a proposta de trabalho com esquemas montados para auxiliar o paciente a superar suas dificuldades. Young (2003) indica que através do acesso aos sentimentos, pensamentos e imagens por um breve treinamento em curto prazo, aproximadamente em vinte sessões, supõem-se que assim estarão motivados a realizar tarefas de casa e a aprender estratégias para autocontrole. Segundo esse autor todas as cognições e todos os padrões de comportamento podem ser modificados por análise empírica, discurso lógico, experimentação, passos graduais e pela prática.

b)Grupo Sem Medo de Sentir Medo para Portadores de Transtornos de Pânico
  Funcionando dentro dos princípios da Terapia Cognitivo Comportamental, este grupo acolhe e trata de pacientes que sofrem  desse transtorno, caracterizado por ataques apresentados num período distinto onde subitamente são acometidos por apreensão, temor ou terror, podendo estar associados a sentimentos de catástrofe iminente. O DSM-IV (2002) indica que nos ataques poderão estar presentes sintomas tais como falta de ar, palpitações, dor ou desconforto torácico, sensação de sufocamento, medo de enlouquecer ou perder o controle.
  As pessoas que sofrem com o Transtorno de Pânico podem ainda apresentar Agorafobia, que é a ansiedade ou esquiva a locais ou situações das quais poderia ser difícil escapar, ou nas quais, segundo o mesmo Manual, o socorro poderia não estar disponível. Normalmente estas manifestações acontecem em locais fechados, ou com muitas pessoas, ou ainda numa situação de isolamento, provocando intenso sofrimento, ao portador.

c)Grupo Melhor é Possível para Portadores de Transtornos Obsessivo Compulsivo
   O grupo também oferece tratamento com a Terapia Cognitivo Comportamental, com enfoque na minimização dos sintomas desse Transtorno que se trata de um problema psiquiátrico onde há a ocorrência de ideias recorrentes e intrusivas. Rangé (2003) observa que esta situação é acompanhada por desconforto emocional e de comportamento ritualizado incontrolável. A psicopatologia afeta pessoas em todos os grupos étnicos, abrangendo de forma igualitária homens e mulheres. Os sintomas do TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo) iniciam normalmente durante a puberdade e adolescência, mas segundo a mesma autora, há casos de inicio prematuro já na infância. 

d)Grupo em Paz com a Balança
   Este grupo trabalha, numa abordagem psicológica e nutricional, os aspectos que levam as pessoas a comerem demasiadamente em decorrência do quadro de Ansiedade Generalizada. Para Zukerfeld (1997) a abordagem de pacientes com transtornos alimentares deve ser interdisciplinar e ter finalidades de mútua ajuda e educacionais. Considerando este pressuposto, o grupo é acompanhado por uma nutricionista que trabalha com programa de reeducação alimentar e por uma psicóloga que aborda os aspectos inconscientes  que levam os portadores desta sintomatologia a agirem dentro desse padrão de comportamento.
  A Ansiedade Generalizada, segundo DSM-IV (2002), é uma preocupação excessiva que ocorre na maioria dos dias por um período de pelo menos seis meses, sobre diversos eventos ou atividades. Ela se manifesta acompanhada de pelo menos três sintomas a seguir relacionados: inquietação, fadiga, dificuldade de concentração, irritabilidade, tensão muscular e perturbação do sono.  Tendo como fatores preponderantes a alimentação e fala compulsiva, são pessoas que se preocupam exageradamente com situações cotidianas e rotineiras, agitadas que mudam o foco da preocupação de acordo com o curso do transtorno ou tratamento.

   e)Grupo de Yoga
Os Transtornos de Ansiedade têm importante aliado terapêutico na diminuição dos sintomas decorrentes da tensão e rigidez muscular na yoga,  que é a prática de técnicas que potencializem a respiração e relaxamento corporal.
   Algumas técnicas de respiração são utilizadas também na psicoterapia Cognitivo Comportamental, numa forma de alertar o paciente sobre o processo que sofre quando é acometido pelo ataque de pânico ou de ansiedade. Caminha (2003,) orienta que o exercício de respiração é utilizado como preliminar ao treino para relaxamento, pois além de livrá-lo dos pensamentos incapacitantes, quando preocupado com a respiração adequada, dá-lhe um senso de controle sobre o próprio organismo.
  Na Yoga uma das primeiras atitudes é reaprender a respirar, utilizando as narinas quando é feito o treinamento para dominar eletivamente os músculos respiratórios abdominais. Mestre de Rose (1995) comenta que utiliza 46 exercícios respiratórios diferentes para uma prática adequada desta filosofia que, embora não seja terapêutica, agrega resultado terapêutico no fortalecimento muscular beneficiando todo um contexto corporal, pois com sua prática aliviamos a tensão emocional, nervosa e muscular decorrentes do estresse cotidiano.
    Considerando estas premissas o grupo de Yoga funciona como aliado terapêutico aos pacientes que participem de outros grupos em psicoterapia, ou por encaminhamento de profissionais da área psicológica ou psiquiátrica.

f)Grupo de Recursos Terapêuticos
  O grupo assim denominado trabalha nos princípios da Abordagem Humanista priorizando uma relação terapeuta pessoa que fortifica o indivíduo no autoconhecimento, na autoconfiança, no despertar de sua potencialidade, levando-o consequentemente à ação. Gusmão (1999),enfatiza que esta atitude no atendimento psicológico, criada por Rogers, tem tido fundamental importância no processo de libertação de tornar-se humano, pois aquele que é facilitado em suas potencialidades torna-se livre e responsável por suas atitudes.
Inicia com um período de fala, aproximadamente uma hora,  onde os participantes são compreendidos não como pessoas doentes e sim aceitos pelo terapeuta “...como pessoa humana inteira, única, subjetiva, como  digno e válido núcleo da vida humana”(Rogers, 1985, p.9)
   Após o período, onde as ansiedades emergentes são compartilhadas em grupo, é proposta uma dinâmica vivencial,quando são utilizados os princípios da Bioenergética, criada por Reich no início do século XX, em que explorava o método de compreensão e combate ao sofrimento humano através do rompimento ou dissolução de suas couraças, ou seja:
”... suas resistências organizadas numa “estrutura caracterológica” seriam a soma de reações mentais e musculares que uma pessoa constrói para bloquear emoções e sensações, resultando na sua maneira típica de ser” (Reich, 1975, p.339)

Para Reich que era psiquiatra e foi dissidente de Freud, haveria num futuro próximo o reconhecimento das funções emocionais e da energia biológica como indispensável para a compreensão das funções físicas e fisiológicas. Esta teoria também passou a ser mais bem desenvolvida e estudada por Lowen que, como psiquiatra, aprimorou a técnica de levar o paciente a identificar em si as experiências, necessidades e sentimentos reais de seu próprio corpo.
Quanto mais vivo for o corpo, mais vivida será sua percepção do mundo e mais ativa sua resposta a ele (...) Para se conhecer, um indivíduo deve saber o que sente, o que expressa com seu rosto, como se contém e como se move...”(Lowen, p.7, 1979)

  Empregando as técnicas destas teorias agregadas à Gestalt terapia, que é centrada na troca, na comunicação e no contato permite-se ao grupo a compreensão de outra forma ao que acontece a sua volta, conforme Ginger (2007). Com enfoque no aqui e agora e utilizando meios que combinam respiração, contato e meditação, o grupo trabalha afetos, e modos de superar os obstáculos perante as dificuldades apresentadas com a Ansiedade e seus transtornos, proporcionando aos seus participantes serem agentes em suas próprias transformações.
   Para esta proposta de trabalho são encaminhadas pessoas que sofrem dos demais Transtornos de Ansiedade, além daquelas que preferem essa modalidade de atendimento, pois a associação na ONG possibilita a participação em até dois grupos terapêuticos.
    Devido a esta prerrogativa, o público participante formava, na época,  certa diversidade nas manifestações dos Transtornos, pois a Fobia Social tem como sintomatologia o medo acentuado e persistente de uma ou mais situações sociais ou de seu desempenho. Perante o julgamento de pessoas estranhas, temem agir ou mostrar os sintomas de ansiedade, que para eles representem vergonha. Picon (2003) propõe que o tratamento seja, dentro da Terapia Cognitivo Comportamental, orientar no manejo da ansiedade, treinamento de habilidades sociais e exposição sistemática.
     Já na Fobia Específica, que se trata de um medo acentuado e persistente, revelado pela presença ou antecipação de objeto ou situação fóbica, (andar de avião, elevador, escuro, animais, ver sangue...) causando intenso sofrimento psíquico. Wainer (2003) alerta que o medo, assim como a ansiedade são emoções naturais aos seres humanos, mas que nos casos em que excedem ao racional e começam a prejudicar a funcionalidade do indivíduo, precisam ser mais bem acompanhados para que não venham a incapacitá-lo nas relações básicas.
  Considerando ainda, as manifestações de outros Transtornos que possuem comorbidade com a Ansiedade, eventualmente participavam do grupo pessoas com sintomas de Depressão, que segundo o DSM-IV (2002), são denominados como Transtorno Depressivo (TD) sem outra Especificação, que podem apresentar-se como parte de um Transtorno de Ansiedade.
Eles podem se manifestar como TD Menor, com episódios de pelo menos duas semanas de episódios depressivos; como TD Breve Recorrente, caracterizados por episódios depressivos com duração de dois dias a duas semanas, ocorrendo pelo menos uma vez por mês, durante um ano. Ou ainda, em situações nas quais se percebe que o Transtorno Depressivo está presente, mas é impossível determinar se é primário, devido a uma condição médica geral ou induzido por substâncias.
Outro Transtorno que tem manifestação semelhante aos de Ansiedade é o da Personalidade Esquizotípica, que dentre seus critérios diagnósticos, segundo DSM-IV (2002), apresenta ansiedade social excessiva que não diminui com a familiaridade e tende a ser associada com temores paranóides, da mesma forma que na Fobia Social.

#Esse é o grupo que passou pelo processo de transformação para um Grupo de Biodança.




2- O PROCESSO DE TRANSFORMAÇÃO DO GRUPO


2.1 – Os Indicativos
Os participantes do Grupo de Recursos Terapêuticos vinham apresentando uma adesão à psicoterapia, por um período superior ao que a média de pacientes em processo de acompanhamento apresentava. Demonstravam que, dentro de suas possibilidades, pretendiam continuar participando do grupo, pois haviam definido sua especificidade referendando os pressupostos da Gestalterapia.
 Ginger (2007), observa que os participantes tornam-se testemunhas do trabalho individual de cada um, pois falam deles mesmos, constituindo assim no grupo uma ressonância da problemática de todos.
Já para Góis (2014)“O grupo não é o espelho, o grupo é o lugar onde revelamos e partilhamos a nossa humanidade. O Grupo de Biodança é a cerimônia da vida se fazendo singularidade”(comentário em aula  de Metodologia V)
Enquanto que para Toro (s/data), o grupo é um centro gerador de vida, sua energia converge dentro dele, produzindo um potencial que renova a harmonia do organismo, criando esse campo magnético onde se projetam e refletem emoções, desejos, sensações físicas de intensidade significativa, fornecendo, desta forma, a percepção mais essencial dos outros componentes numa maneira nova de identificação.


2.2 – As Reais Necessidades
Percebia-se que traziam situações para serem tratadas que tinham muito mais ressonância com Ansiedade do que com Transtornos.
   A ansiedade, diferentemente dos Transtornos de Ansiedade, é o Mal do Século denominada como Síndrome do Pensamento Acelerado, por Cury (2014) que alerta sobre sua ocorrência em indivíduos de todas as idades, pois a sociedade moderna, numa velocidade consumista e estressante leva-os ao descontrole no fluxo do pensamento e atitudes perante as exigências cotidianas. 
Metaforicamente, a ansiedade é indicada como “Um tempo grávido de promessas, condenado ao aborto dos ideais” (Corso, 2014. P.27)
   Investigada por May (2000), que faz um comparativo entre diferentes teóricos da filosofia, quando reflete sobre o contexto histórico, religioso e cultural que leva o indivíduo a sofrer com ela. Pois para esse autor quando o indivíduo está com seus valores desunidos tende a perder-se e reprimir sua ansiedade normal, encaminhando-se assim para um processo patológico.
  Mas Rogers (1976), alerta que o humano, em sua subjetividade, não é uma máquina, nem uma cadeia de estímulo e resposta, nem tampouco um objeto ou uma peça de jogo, por isto para qualquer rótulo que lhe atribuam, é necessário considerar que se trata de uma pessoa humana.
    May (2000) indica o que é ansiedade normal, comentando que ela é inerente à espécie humana, frente a situações de mudança, desafios, no processo de desenvolvimento, pois ela compreende a desistência da segurança imediata em favor de outros objetivos mais extensos.
     Portanto o objetivo do grupo e do trabalho vem ao encontro do que foi orientado por um filósofo existencialista do século XIX, pois a terapia deveria ter o enfoque não de livrar o paciente da ansiedade, mas sim ajudá-lo a livrar-se da doença para que possa enfrentá-la de forma  normal construtivamente.
   “Aprender a conhecer a ansiedade é uma aventura que todo o homem tem que enfrentar, se não quiser perder-se, seja por não tê-la conhecido ou por ter sucumbido a ela.  Portanto, aquele que  aprendeu corretamente como ser ansioso aprendeu a coisa mais importante.”(Kierkegaard in May. 2000,p.116)

2.3 – A Subjetividade
No entanto, alguns afirmavam categoricamente que vinham porque sentiam falta do abraço, pois o incentivo ao afeto sempre aconteceu, durante o processo terapêutico, quando encerrávamos os encontros trocando abraços entre todos os participantes. Para Rolando Toro (1991), a afetividade é base sólida para um processo de aprendizagem, já para Góis (1995),  as coisas só fazem sentido a partir de um coração amante.
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2.4 – A Escolha do Método
Além disto, a escolha do método de Biodança trazia indicativos de que a população atendida estava necessitando trabalhar mais intensamente seus afetos e progredir na vivência em grupo com dinâmicas potencializadoras de seus vínculos.
Araneda (2012) contextualiza Biodanza como uma disciplina de efeitos multifacetados; com reeducação afetiva, reabilitação e psicoterapia baseada em vivências induzidas pela música. Para ele, seu objetivo é aprender a dançar a vida e ter acesso ao gozo de viver.

2.5– A Preparação
   Um mês antes de passarmos para o grupo de Biodança, os participantes foram informados da nova proposta, que não seria um grupo terapêutico, mas um grupo de potencialização de suas capacidades. Assim como Toro (2005) enfoca que a Biodança, ao contrário da psicologia e psiquiatria, leva seriamente em consideração a possibilidade de curar pessoas que sofrem com a estimulação de sua parte saudável, pois para ele se é possível fazer crescer a ”parte luminosa”* de alguém doente, sua “parte escura”*, aparente nos sintomas, tende a reduzir. *(grifo do autor)
 Neste período, considerando que a fala era uma necessidade emergente dos participantes, treinamos técnicas de meditação orientada quando,  com enfoque no controle do fluxo de pensamentos, eram levados a silenciar a mente para minimizar a ansiedade. A exemplo das técnicas de gestalt-terapia, onde a filosofia Zen e o trabalho com a conscientização do corpo, mantiveram   o grupo focado no aqui-e-agora, conforme orienta Corn (1980), para a eficácia daquele método. 
A meditação era dirigida utilizando preferencialmente  a respiração diafragmática, que produz a maior quantidade de tomada de ar para um mínimo esforço, pois é comum pessoas que sofrem com ansiedade respirarem inadequadamente, provocando maior rigidez muscular.
“O diafragma se contrai e desce, empurrando as vísceras abdominais para baixo e para frente, que são acomodadas pelo alargamento da cavidade abdominal. Esse movimento eleva ligeiramente as costelas inferiores, expandindo assim a parte inferior do peito,produzindo a expansão dos pulmões para baixo e para fora, quando eles têm maior liberdade de movimento” (Lowen, 1979.p.152)
Com a técnica de respiração adequada, há a possibilidade de ruptura das couraças, pois para Reich (1975), a couraça de caráter e a muscular são funcionalmente idênticas; quando as atitudes da segunda podem ser removidas, as primeiras consequentemente serão beneficiadas, com a recíproca tornando-se verdadeira nesse processo.
   Já Lowen(1979), observa que a redução na motilidade do corpo afeta seu metabolismo, pois a motilidade tem um efeito direto sobre a respiração; quanto mais ele se movimenta mais ele respira, e esta relação influencia o sentimento, ou seja, quanto pior o metabolismo respiratório, menores condições de superar dificuldades emocionais e maior rigidez muscular. 

2.6 – A Aula Inaugural
    Ao término daquele mês, propiciando ao grupo se acostumar com a nova proposta, e também para que eu pudesse me sentir definitivamente preparada para a nova função como futura facilitadora de Biodança, encaminhei um convite aberto a todos os antigos participantes, pela rede social da ONG (Anexo IV) convidando para aula inaugural de Biodança, em 05 de novembro de 2013.
    Góis (2012) alerta que o facilitador de grupo, por conduzir processos sociais e humanos, geralmente profundos, deverá assumir postura coerente com a situação, pois ele não é um catalisador, considerando que também passa por mudanças no processo de facilitação grupal.
   Esse processo foi acompanhado em supervisão por Teresinha Flores, didata da EGB que recebeu o projeto (Anexo V), assim como a programação das aulas. Posteriormente, devido sua dificuldade de acompanhá-las presencialmente,  a supervisão passou a ser feita por Rudimar Merlo, até a conclusão do trabalho.
 Na primeira sessão vieram prestigiar a atividade, estagiários da associação, profissionais da psicologia e nutrição, além dos participantes egressos do Grupo de Recursos Terapêuticos.
    Os participantes chegaram curiosos, esperançosos, alguns tímidos, outros alegres, e para minha surpresa e receio apresentou-se uma nova integrante para o grupo. Toro (2005) orienta que a Biodança torna-se eficaz dentro de um grupo afetivamente integrado, que possibilite diversidade de comunicação e proporcione um continente protetor a cada participante na realização das vivências. Considerando esta premissa, a sessão foi dirigida com muito cuidado e atenção principalmente aos novos integrantes do grupo.
 Forneci-lhes um caderno em cuja capa estava a imagem do convite, para que pudessem relatar por escrito suas vivências durante exercícios de contato, pois conforme o orientado no polígrafo de Metodologia V, esses relatos têm caráter privado, e se houvesse a necessidade de uma significação do processo vivenciado, haveria essa possibilidade, caso desejassem posteriormente conversar comigo a respeito. Na contra capa foi colocada a letra da música “O Caderno” de Toquinho. (Anexo VI)
    A primeira sessão esteve voltada à alegria de viver.  Na Roda de conversa inicial foi feita uma breve apresentação do Método Biodanza com suas possibilidades, onde a  prioridade seria vivência sobre o pensamento e palavra. Em síntese, que a proposta de Biodança não consiste apenas em dançar, mas em ativar, com danças específicas, potenciais afetivos e de comunicação que nos auxiliem a conectar consigo, com o outro e com o universo.
“A Biodança é um sistema de desenvolvimento humano orientado para o estudo e o fortalecimento da expressão das potencialidades humanas, através da música, exercícios de comunicação em grupo e vivências integradoras.” (Góis, 1991. p.1)
  O contato corporal, foi muito pouco utilizado, considerando tratar-se de um grupo heterogêneo, com pessoas que também não eram conhecidas dos demais. Teve uma formação lúdica, muito leve, com uma pequena curva orgânica.
Na Metodologia II Toro orienta que durante a parte vivencial induz-se  uma redução passageira das funções de atenção e comando para que se proceda o estimulo adequado das funções límbico-hipotalâmicas de autorregulação orgânica. Tal estado pode levar a um momento regressivo em que os participantes fiquem num estado descontraído. E no término da sessão há a necessidade de elevar a identidade, que não deve ser intensa.

Com seu significado complementado em Metodologia III, onde observa que a curva orgânica é composta na primeira parte da aula, que estimula o sistema simpático adrenérgico,  na segunda que estimula o erotismo e a afetividade, na terceira que estimula a regressão e na quarta parte eleva moderadamente a consciência.
PG – Potencial Genético;
C – Consciência Intensificada da Identidade;
R – Regressão;
I – Integração;
Linhas de Vivência(Afetividade; Criatividade; Sexualidade; Vitalidade e Transcendência)
Fonte: Apostila Metodologia II a Sessão de Biodança

Partindo destes pressupostos e sua progressividade para iniciantes, foram propiciadas condições para a regulação bioquímica com uma  pequena curvatura, numa maneira de respeitar a metodologia. Com trocas das músicas de forma orgânica e com uso adequado de exercícios passando de um leve estado de euforia, com ativação do sistema simpático (adrenérgica) para gradualmente ir entrando num estado regressivo, com ativação do sistema parassimpático (colinérgico), para finalmente haver a preparação para ativação do encerramento.  
   No Tomo I Toro (1991) alerta que a progressividade deve ser rigorosamente observada, no planejamento  e na estruturação  de cada sessão, a intensidade e duração dos exercícios deve ser graduada, para que se produza um processo de mudança evolutivo.


2.7 – O Encerramento da Aula
 Ao término da sessão a euforia era evidente, os participantes se abraçavam e pediam mais músicas, diziam estar leves e felizes, principalmente aqueles que já interagiam no grupo de Recursos Terapêuticos. Os estagiários e demais profissionais também demonstraram entusiasmo e mostraram-se agradecidos por haverem participado e conhecido tal metodologia de trabalho. Até a nova participante, que chegou timidamente, estava demonstrando alguma euforia. Lembravam-me o depoimento de Signor em seu livro quando relata os benefícios da Biodança em suas emoções.
“As músicas mexiam com o coração, com as emoções e com os sentimentos, facilitavam o olhar, as expressões do movimento e os encontros com abraços (...) A Biodança é um convite vigoroso a ser vital, exuberante, expressivo e criativo, afetivo, terno e amoroso, panorâmico e transcendental.”(Signor, s/data p.89)

No entanto, Toro em Metodologia II alerta que há um perigo na euforia dos alunos, ao término da sessão, pois este fenômeno pode nos levar a refletir se compreenderam adequadamente a proposta de Biodanza, pois o estado interno de regressão é suave e as pessoas que compreendem a proposta desejam permanecer nesse estado sereno. Como se tratava da primeira experiência, que se prestava a uma apresentação das possibilidades do Método, precisávamos de mais sessões para ir formando uma postura condizente com a proposta.
2.8 – As Possibilidades
 No próximo encontro havia a dúvida sobre a adesão do grupo, se retornariam e como retornariam, pois considerando a premissa de que mediante vivências muito gratificantes existe a possibilidade do recolhimento ao sistema limitante de adoecimento ou de culpa perante o prazer.
   Neto (2009) observa que na evolução dos grupos podem ser identificadas reações de ambivalência com sentimento de medo ou de desconfiança entre os participantes, reforçando o apontado no polígrafo Metodologia V que indica no grupo o surgimento de impulsos agressivos, temor ao rechaço ou desejo de contato. Estas possibilidades resultam em diferentes sistemas de defesa, dentre elas evasão do mesmo.  
Mas Flores (2006) pondera que no processo grupal de Biodança a identidade se expressa em sua plenitude, perante seu reconhecimento em presença do outro, resultando no encontro afetivo com seu semelhante, quando há  o resgate da segurança e o prazer que nosso instinto gregário necessita.
Mediante esses pressupostos, a próxima sessão transcorreu dentro do desejado, confiando no Método em que Flores (2006) retifica  quanto o trabalho em busca da liberdade interna, com a prática progressiva,  possibilita reforçar a identidade pessoal pela autorregulação. Tornando-se adequado para diversas faixas etárias, condições socioeconômicas, doentes mentais, enfermos psicossomáticos ou deficientes físicos.







3 -OS PARTICIPANTES DO GRUPO


Somos
“Somos o quadro ainda não terminado.
Somos a música que ainda não tem todos os sons.
Somos as florestas onde ainda não floresceram todas as sementes.
Somos o cosmos que ainda não mostrou todos os planetas, sóis e estrelas.
Somos o silêncio que ainda faz som.
Somos a alegria que ainda não morreu de felicidade.
Somos a esperança plena de desespero.
Somos a coragem trêmula de pavor.
Somos anjos que brincam com o demônio.
Somos demônios que querem ser anjos.
Somos santos pecadores.
Somos virtudes.
Somos pó de estrelas.
Somos luz.
Somos muito mais do que somos.”
(Rolando Toro)

   Inspirada nesse poema de Rolando Toro, adotei como nome fictício aos participantes denominações de estrelas, planetas, cometas e meteoros, assim quando me referir a eles será utilizando nomes de corpos celestes. Nada mais inspirador do que trabalhar com seres de luz!
A participante que estava a mais tempo em acompanhamento era Mintaka(31.03.11), uma das três estrelas da constelação do Cinturão de Órion, encaminhada por Fobia Social, episódios de pânico e depressão moderada, além destas queixas apontou alergias como problema de saúde.Sua fala era baixa, tímida, e com dificuldades de relacionamento no trabalho, assim como familiares.
Outra do mesmo Cinturão, era Alnilam em psicoterapia desde 17.09.2012  por Ansiedade Generalizada, episódios de pânico e em tratamento para fibromialgia. Falava rapidamente, apresentava tensão muscular e sofrimento intenso perante dificuldades emocionais e significativa dificuldade de contato.
A terceira, Alnitak que  sofria de Ansiedade com traços de depressão, insônia crônica, em acompanhamento desde 09.07.2013, também com fala exagerada,  pouco contato dos sentimentos e alguma dificuldade de relacionamento. As três foram assim denominadas pois tinham dificuldades similares, assim como suas  configurações familiares, como  as Três Marias.
Antares teve como motivo para adesão ao grupo, em 11.10.2012, Ansiedade Generalizada,com ataques de pânico, além de estar em tratamento para hipertensão arterial, gastrite, coluna, apresentava dificuldades na área profissional e uma grande rigidez de pensamento, com baixa tolerância a frustração, pouca flexibilidade corporal e muitas queixas sobre o ambiente profissional e social no qual estava inserido.
A meu convite, sua esposa Mimosa, a estrela Beta do Cruzeiro do Sul,também entrou no grupo de Biodança,em 05.11.2013, pois desde o primeiro dia do tratamento de Antares o acompanhava nos atendimentos, aguardando do lado de fora até sua saída, pois ele precisava de sua companhia e apoio para continuar em psicoterapia. Apresentava boa capacidade de vinculação, e adequada postura nas atividades do grupo.  Aos poucos, na roda de intimidade verbal foi demonstrando seu sofrimento  perante as dificuldades do marido e da mãe, pessoa idosa com algumas limitações.
Betelgeuse, estrela alfa da Constelação de Órion, recebeu esse nome por sua força e determinação, ingressou no grupo em 17.09.12, por Ansiedade Generalizada, com problemas na coluna e alergias. As dificuldades dessa estrela eram o gerenciamento familiar, onde assumiu o papel de Alfa, quando deixava de viver sua própria vida para resolver os problemas de todos. Sua maior manifestação de ansiedade se procedia pela fala exagerada, muitas vezes monopolizando o tempo para conversas no grupo. Trouxe consigo sua irmã Alnilam.
Ursa Maior, é uma constelação que agrega sete estrelas, a exemplo desta participante, que numa idade bastante avançada gerencia a família que enfrenta dificuldades financeiras, de organização, deficiência mental de um filho, esposo aposentado e com limitações, além de três netos e uma filha. O motivo da procura de atendimento foi por Ansiedade Generalizada, Fobia específica, em 06.06.12. Além dessas dificuldades sofre da coluna e hipertensão arterial. Apresentava pensamento acelerado, fala compulsiva e dificuldade de relacionamentos com praticamente todos os membros da família.
Sirius, estrela mais brilhante da constelação Canis Major, a mais nova integrante do grupo, iniciou em 05.11.2013, encaminhada por Transtorno de Pânico e Ansiedade Generalizada frente aos desafios para cuidar de um filho portador de necessidades especiais e com grandes problemas financeiros para custear locomoção e tratamento adequado ao mesmo. Em tratamento para coluna e hipertensão arterial. Apesar das dificuldades reais enfrentadas, apresentava distorção frente à realidade, com disponibilidade para suportar todos os desafios. Apresentava-se timidamente, afeto modulado, e atitudes que indicavam dificuldades de contato. 
Alpha Centauri, estrela muito afastada da terra, com pouca visibilidade, admitida no grupo por Transtorno de pânico e Depressão, em 27.08.2013, também em tratamento para alergias.  Apresentava dificuldade de se posicionar perante desafios, problemas com agenda de trabalho para conciliar horários de atendimento, baixa autoestima e pouca capacidade de vinculação. Falava muito baixo, com retraimento muscular significativo, dificuldades de interagir com os demais participantes, e dificuldade de contato.
Estrela Polar, recebeu esse nome porque apesar de estar sempre no céu, modifica sua localização de acordo com a rotação da terra. Procurou atendimento em 12.09.12 por Transtorno de Pânico e Agorafobia, em tratamento do colesterol. Aparentemente as demais relações estavam bem orientadas, com motivação para exercer atividades laborais, bons vínculos familiar e boa qualidade de vida. Sua ansiedade principal era o motivo de uma viagem para visitar a filha que morava no exterior, e seu pânico frente andar de avião a estava obrigando  passar por constrangimento perante os familiares.
As queixas e manifestações psicossomáticas indicadas corroboram o apontado na apostila dos Aspectos Fisiológicos de Biodança, quando indica a relação entre o Sistema Nervoso Autônomo com o Imunológico, quando as substâncias químicas descarregadas na corrente sanguínea afetam diretamente aquele sistema. 
Os estagiários que acompanham o grupo, realizando um rodízio entre si, foram denominados com nomes de planetas que por estarem próximos ao sol, têm luminosidade semelhante às estrelas.   Júpiter, que aparece no céu próximo a Lua, Vênus também conhecida por estrela Dalva, manteve o acompanhamento por quatro encontros, e  Mercúrio que  juntou-se ao grupo em maio  acompanhando-o desde então.
O grupo de Biodança iniciou  com  os dez participantes e  uma estagiária de psicologia,  Júpiter, que manteve-se acompanhando-nos por nove encontros, até o rodízio,proposto na prática do estágio.
Ross, estrela que se movimenta muito rapidamente, entrou no grupo em 03.12.2013, para conhecer a proposta de Biodança. Dedicada à família, esposo, pais idosos, aposentada e em busca de atividades para manter-se ocupada, com alguns traços depressivos.
Começaram a participar do grupo em sua segunda fase, após as férias de verão, quatro  novos integrantes.
Bendegó, assim como meteoros que refletem um brilho chamado de estrela cadente quando entram em contato com a atmosfera terrestre.  Procurou atendimento por ansiedade em 25.03.2014, perante o desemprego e nova formação familiar, pois havia perdido um bebê após haver formalizado uma relação estável. Apresentou-se flexível nas primeiras atividades com boa vinculação afetiva no grupo.
Wolf, uma das mais novas estrelas conhecidas, entrou no grupo em 10.06.2014, por Ansiedade Generalizada, com problemas na coluna vertebral, gastrite, hipertensão arterial, encaminhada por sua psiquiatra. Apresentou-se agitada, fala exagerada, dificuldade de compreender a proposta vivencial, rigidez muscular acentuada.
Cygni, antigo paciente de grupos da associação desde 2010, foi encaminhado por Transtorno Obsessivo Compulsivo e Transtorno da Personalidade Esquizotípica. Após um ano de afastamento das atividades retornou para atendimento em 10.06.2014.  Apresentou-se dentro do padrão de comportamento para quem sofre desse transtorno, rigidez muscular, fala modulada e muito baixa, sem contato visual, e de difícil vinculação com os demais integrantes.  
E por último, Lalande, que se inseriu no grupo após o convite meu de conhecer a proposta, pois procurou atendimento por ansiedade generalizada no dia em que o grupo funcionava em 10.06.2014. Apresentou-se conectada e com adequada flexibilidade para a prática de Biodança, embora tenha falado muito, conseguiu interagir com os demais integrantes.


















4 - OS EFEITOS DA SESSÃO DE BIODANÇA NOS PARTICIPANTES

“Hay una zona Del ser en que poesia
Y danza se encuetran.
Si nuestra vida es movimento pleno de sentido,
Es también poesia.
Hacer de nuestra vivencia una danza es,
En realidade, ser un poema”
(Rolando Toro) 

   Na segunda sessão, durante a roda de intimidade verbal, surgiram os mais diversos depoimentos dentro de um clima de incredulidade, expectativa e maximização das vivências experimentadas.

4.1   - Os Efeitos Benéficos
“Senti energia, mas não é ficar acelerada o tempo todo...” A função criadora é estimulada em situações de expressividade, quando num clima de tensão criadora abre-se espaço para o inusitado, Toro (1991) observa que diante da possibilidade criativa do método,  são desencadeados processos revigorantes.
” Me assustei com a criança...”  Na Metodologia V, Toro elenca as diferentes funções induzidas pela música na sequência de exercícios, quando o grupo pode assumir a função permissiva, onde os participantes permitem-se diminuir a potencialidade dos mecanismos de defesa, quando a  energia afetiva reprimida circula por seus caminhos espontâneos.
“Soltei literalmente...”
 “É como se libertasse alguma coisa...” Ainda em Metodologia V, Toro elege o grupo como facilitador das expressões saudáveis de cada um, como estimular o ímpeto vital, o desejo de contato, a alegria, a criatividade.
“Senti uma paz e tranquilidade...” Tal como as outras funções do grupo, o caráter deflagrador, pode proporcionar um processo de  crescimento, onde a experiência vivida assume grande intensidade, com o caráter de uma autodescoberta comovedora. (Id Ibid)
“É um caminhar diferente...” Assim como a função integradora, quando a pessoa conquista um nível diverso, dentro de sua espiral evolutiva., tal como a integração das pernas ao tronco nos exercícios de caminhar. (Id Ibid)

4.2   - A Vinculação e Afetividade
Mediante a falta de algum participante que, a partir da transformação do grupo, era justificada por email ou por telefone, as manifestações aprofundavam os sentimentos.
“Sinto falta das pessoas que faltam, do abraço, do carinho...”(sic)
“Que pena que não conseguem vir toda a semana, é tão bom estar com todo o grupo...”
Após o período de férias que interrompeu os encontros por dois meses e meio devido ao feriado de carnaval:
“Senti muita falta, em casa fico sem fazer nada, parece que falta algo..”
“ Fez falta a biodança...”
“Tô louca que volte a Biodança...” (sic)
Góis (1995) indica que o papel do outro no grupo é emergir o ser de modo bruto e indiviso, fazendo do outro e a si mesmo um processo civilizatório numa rede crescente de interações humanas.
Quando eu te encontro eu tenho notícias de mim.” (Toro s/data)

4.3   - O Processo de Reaprendizagem
No desenvolvimento do trabalho em grupo das sessões de Biodança já foi possível observar alguns relatos de modificações perante os desafios enfrentados no cotidiano.
“Eu sei que terei um monte de coisas para fazer, todas muito estressantes que eu vou ter que resolver, mas acho melhor vir e poder enfrentar melhor o que vem pela frente...”
“Tô cansada, mas quis vir ao grupo para ficar melhor...” (sic)
Góis (1995) alerta que não podemos encontrar a transcendência fora dos afazeres da vida diária, e nem estes sem a transcendência, sob pena de enfraquecermos ou destruirmos a nós mesmo.
 “Tem sido uma boa experiência, agora ao invés de me desesperar, vejo que há outras possibilidades, acho que estou aprendendo...”
“Agora já não fico mais tão tenso mediante as contrariedades, saio de perto, faço outra coisa, devagar vou aprendendo...”
“Eu gritava, não sabia mais falar, agora eu entendi que não dá para modificar, quem tem que mudar somos nós...”
Falando sobre a Identidade, Góis observa que pessoas insatisfeitas com a vida, que a levam com gestos vazios de desamor, após a biodança transformam-se em seres humanos vivos, potentes, capazes de criar vínculos de amor para consigo mesmo, com os outros e com a natureza, rico de gestos espontâneos e naturais; sensíveis, integrados, presentes ao longo das civilizações e pouco vividos com intensidade necessária à manifestação de si mesmo no mundo. (id Ibid)
“Passei a semana cantarolando a música, ficava alegre só de me lembrar...”
“É tão bom,de onde tu tiras estas músicas, que fazem a gente ir longe, viajar...”
“Às vezes eu danço lá no cofre, apesar de ser monitorado por câmeras (...) Pelo menos me sinto melhor...”
Construindo-se na musicalidade do universo e no som próprio de sua espécie, o ser humano é ritmo, vínculo com a pulsação da totalidade; é melodia na intimidade da relação com o outro; é harmonia no silêncio e quietude de si mesmo. Vincula-se com a totalidade com a espécie e consigo mesmo por meio de pautas musicais (Id Ibid)
Araneda (2012) aponta a música como indutora de estruturas seletivas individuais; influenciando na harmonia interior, no sentido do ritmo, na reeducação afetiva e, sobretudo incorporando estruturas holográficas ao sistema nervoso que criam novas respostas frente ao meio ambiente.
“Que bom que minha cirurgia não saiu ainda, assim fico mais um tempo fazendo biodança (...) dançando com vocês!”
 Góis (1995) observa que um olhar, um sorriso, um toque, cada gesto contém toda a identidade, a pessoa inteira, numa totalidade maior. Quando assim se sente, torna-se mais humano, pulsando em instantes imanentes, transcendentes, indo a lugar nenhum, a não ser ao mais íntimo do seu íntimo.
“Tenho dormido melhor agora...”
“Ela dormiu a noite toda depois da Biodança... Não parava de comentar que todos lhe deram atenção...”
“Tenho sonhado mais...”


Toro (1991) indica que diferentemente de outras espécies, a humana é mais tempo dependente de proteção, alimentação, assim como a excitação e inibição. E que dentro deste contexto, o estado geral de harmonia, evocado pela Biodança retoma a calma, silêncio, e tranquilidade em ressonância com a  antiga vida amniótica e funcional, levando aquele estado relaxado originalmente.
“Às vezes tenho uma sensação de que sou outra pessoa, me desconheço...”
“Sinto que saio daqui encantada pelas coisas... parece que tudo está diferente...”
“Às vezes fico num estado de relaxamento tal, que não tenho vontade de fazer nada,
apenas ficar, assim ...”
Araneda (2012) identifica na Inteligência Poética, o ato de viver que se torna um êxtase poético, nessa condição ele se manifesta numa semântica que não se adquire com as palavras, só com a vontade de beleza, evocação em estado de graça e sensibilidade por formas desconhecidas da realidade concreta. 
 Já Góis (1995) aponta a Biodança como uma grande obra poética de um poeta que ousou revelar a vida como hierofania, ou seja, presença do sagrado em todas as coisas do mundo.

4.4   - Os Desafios
O grande desafio foi de modificar as técnicas de psicodinâmica de grupo, com o conhecimento recíproco dos problemas de seus participantes para o enfoque em Biodança, quando o grupo não trabalha com confissões de seus problemas, pois segundo Toro (1991), pretende-se tratar da parte sã, reforçando os aspectos saudáveis, desenvolvendo as potencialidades através das cinco linhas de vivência.
“O estresse e ansiedade me adoecem, fiquei com pressão alta, torcicolo, gastrite, chorava sem parar...”
“Estou muito mal (...) não sei o que houve acho que foi acúmulo de estresse, estou com infecção urinária, com infecção respiratória, pressão alta...”
“Ainda continuo tomando os medicamentos fico menos ansiosa assim...”
Na Revista Argentina de Biodanza, Ciarlo (2012) confirma que os sentimentos podem ser eliminados da mente, mas não podem sê-lo do corpo. Pois a energia do sentimento oculto permanece atrapalhando o estômago, o peito e o pescoço que poderá ser minimizado com medicalização pela medicina tradicional, porém essa energia e os compostos químicos das reações emocionais permanecem vivas e clamam por sua liberação.
Enquanto que Lucca (2012) observa que os grupos têm música própria, seu som grupal se desenrola com a primazia de tons graves  e viscerais, quando alcança uma integração que o permite fluir. Estas modificações aparecem na linha de Vitalidade, com aumento da energia vital e a integração motora; na linha da Sexualidade, com o despertar da fonte de desejo, na Criatividade, com a capacidade de expressar emoções através do movimento e da voz, na Afetividade desfazendo-se das relações tóxicas formando capacidade de encontros com outras pessoas e na linha de Transcendência, formando uma consciência Biocêntrica contrapondo a cultura antropocêntrica  em que fomos criados.
Entende-se por Biocêntrico, conforme Toro (1991),  um princípio em que tudo que existe no universo, os elementos, astros, vegetais ou animais, inclusive a espécie humana, são componentes de um sistema vivo maior. Portanto, nosso movimento se organiza como expressão de vida e não como meio para alcançar fins antropológicos, sociais ou políticos econômicos. O que importa não é a consciência ideológica das pessoas, mas a consistência afetiva no exercício do movimento amoroso.
Já por Antropocêntrico, Capra (2006) aponta a ecologia rasa, centralizada no ser humano,  pois ela vê os seres humanos como situados acima ou fora da natureza, como a fonte de todos os valores, atribuindo apenas um valor instrumental, ou de uso, à natureza. Enquanto que a ecologia profunda, a exemplo do Princípio Biocêntrico, não  separa seres humanos – ou qualquer outra coisa – do meio ambiente natural. Ela reconhece o valor intrínseco de todos os seres vivos e concebe os seres humanos apenas como um fio particular na teia da vida.
Estas considerações foram constatadas na vigésima aula, quando os participantes do grupo recepcionaram uma nova integrante comentando sobre os benefícios da Biodança em suas vidas. Foram relatos tão impregnados de vitalidade, criatividade e afetividade, que até eu mesma fiquei surpresa.
“Eu não consigo mais ficar sem a biodança... Saio daqui leve e feliz, apesar de todas as dificuldades”
“Saio daqui sorrindo à toa! Parece tudo tão diferente...”
“Eu já entendi os problemas estão por aí mesmo, mas aqui acabo esquecendo tudo!”
“É muito divertido!”
Considerando os desafios e as possibilidades na nova condição como facilitadora de Biodança, observei o que Garcia (2012) questiona sobre os desafios aos facilitadores de Biodanza, quando reflete se poderemos recuperar aspectos primários e essenciais, que deveriam estar em nossa   primeira infância; se  poderia  o Grupo de biodança ser uma fonte de recursos afetivos na reparação das feridas afetivas da identidade;  e principalmente se,  nós facilitadores, recuperamos a conexão com o continuum da vida?
Suas considerações indicam que se o facilitador entender a importância da afetividade para a formação da identidade será possível. Reforça a importância do mesmo saber que, gerando espaços de nutrição afetiva, contribuirá para modificar as diretrizes culturais da nossa civilização e desta forma recuperar a capacidade de aprimorar sua vida. Pois é com a afetividade no coletivo que poderemos modificar não individualmente, mas a matriz cultural, que nos transformou em seres carentes de afeto. E conclama os facilitadores de Biodanza a reconhecerem este grande desafio.
As respostas surgiram em alguns depoimentos:
“Há 15 dias sem vir me sinto mais ansioso...”
“Me sinto leve e encantada com a vida, com as pessoas. Às vezes rio sozinha...”
“A sensação é de leveza com sono reparador”
E tal paradoxo foi confirmado pelo grupo e seus integrantes na fala recente de uma participante, que passou por sérios problemas de saúde durante o processo de inclusão no método de Biodança, além destes problemas, durante um período de chuvas torrenciais sua casa foi muito avariada com perda significativa de bens. Pois diante da motivação de todos os participantes em auxiliá-la com algum recurso ela respondeu dizendo que apesar de todas as perdas, nada era mais significativo e gratificante a ela do que o afeto, atenção e carinho dispensado por todos durante os encontros de biodança.
Para Góis (1995), o método que possibilita a vivência integradora, leva ao desabrochar progressivo de potencialidades inerentes à vida em geral e ao ser humano em particular, desvelando níveis cada vez mais profundos da identidade humana, à prática de Biodança leva as pessoas e religarem com sua humanidade e resgatarem seu instinto gregário.
“Somos sementes, e como ela buscamos nutrição, vínculo e crescimento. Ao jardineiro cabe apenas cuidar com amor, atendendo-as nos caminhos que fazem rumo a algum lugar do infinito (...) o caminho, as próprias sementes saberão fazer seguindo seus fios de natureza.” (Góis, 1995)



Corroborando o apontado por Menezes (2014),na aula de Metodologia VI, sobre o desafio do facilitador de Biodança:  “ O centro da aula de Biodança não é o facilitador, o centro é o processo do praticante e a interação.”
Mas que Góis (1995) define como o poder da consigna:
“Que com linguagem enraizada nas emoções e nos sentimentos  do facilitador surge da sensibilidade e do vínculo com os participantes, brota da vivência do facilitador, naquele instante, assim como o animal se fez homem mediante a comoção, a fala do coração torna-se consigna pela interação sensível, profunda e expressiva entre facilitador e participantes.” (Góis, 1995 P.101)

Diante destas premissas o maior desafio, que poderia transformar-se em obstáculos ao funcionamento do grupo dentro do sistema Biodança, foi anulado comprovando a eficácia da metodologia, pois para seu criador o foco  sempre será a parte saudável dos indivíduos, pois é através dela que alcançamos a o equilíbrio.
“Mediante sucessivos atos de iluminação, gerados no amor é possível elevar a qualidade de vida e conduzi-la para seu máximo esplendor e plenitude.” (Toro, 1991)

4.5   – As Evidências na Vida Cotidiana 

      As situações que foram se apresentando na vida dos participantes levam-nos a refletir sobre a modificação nos seus processos vivenciais. Na esfera profissional, nos relacionamentos interpessoais e em suas atitudes perante obstáculos, que antes os atemorizavam e que os levavam a intenso sofrimento psíquico.
Mintaka apresentou-se mais falante, comunicativa e desejosa de reiniciar suas atividades sociais, cautelosa, mas otimista, aceitou inclusive dar depoimento a um jornal de grande circulação sobre o Transtorno de Pânico, preservando sua identidade.
Alnilam não fala mais em suas doenças e preocupações, apenas diz que precisa continuar vindo a Biodança por muito tempo, pois pretende livrar-se das medicações, demonstra melhor contato com seus sentimentos e melhora significativa na autoestima. Atualmente participa de atividades quatro vezes por semana, e percebe o quanto isto modificou sua vida.
Alnitak tem apresentado um discurso mais coerente, não reclama das dificuldades financeiras e tem procurado novas possibilidades para viver dentro de seu orçamento e procurar se divertir. Esteve recentemente presente, a meu convite, em uma aula aberta de Biodança onde havia pelo menos cinquenta pessoas. Iniciou atividade voluntária junto a um centro que auxilia na atenção e cuidados de crianças excepcionais.
Antares está mais calmo reclama muito menos das situações do trabalho, e quando comenta sobre alguma situação consegue aparentar tranquilidade e até uma nota de humor nas dificuldades. Já consegue perceber que apesar das limitações profissionais há bons aspectos para manter-se vinculado ao trabalho.
Mimosa tem participado de outras atividades, está mais falante e determinada, convidou sua mãe para conhecer a Biodança e tem procurado melhorar o relacionamento entre ambas.
Betelgeuse consegue se apresentar com menor ansiedade, fala menos e demonstra boa flexibilidade perante os desafios na administração familiar, mantendo-se centrada na sua busca por espaços que a levem a uma melhor qualidade de vida.
Ursa Maior é uma guerreira que consegue perceber o lado bom da vida a aproveitá-lo dentro de suas possibilidades, não se mobiliza mais pelas dificuldades familiares, convidou sua irmã para se beneficiar com a Biodança.
Sirius apresentou um processo psicossomático após dois meses na prática de Biodança: adoeceu significativamente, precisando se afastar por quase um mês de suas atividades, nesse período pode reorganizar todas as atribulações cotidianas, refez algumas possibilidades e teve tempo para refletir sobre os processos de negação acerca da realidade vivida. Retornou restabelecida e mais equilibrada.
Como observa Cairo (1999), a doença é um caminho para a cura. E fazer do período de convalescença uma possibilidade para refletir sobre os processos vivenciados na trajetória de vida, pode levar a uma resignificação dos mesmos.  
Wolf e Lalande também permanecem no grupo com boa integração e vinculação dentre os demais praticantes, como estão no início do processo de inclusão precisam ser melhor acompanhadas para uma possível avaliação de suas progressividades.
Cygni participa sem regularidade nas atividades, considerando o comprometimento em decorrência de sua dificuldade emocional. É apropriado acolhermos suas passagens, mesmo que como certos cometas, eventualmente, mas com afetividade num ambiente cálido e acolhedor. A demonstração de sua vinculação aconteceu no dia que trouxe consigo seu pai para fazer biodança com ele. 
Estrela Polar não participa mais do grupo, pois conseguiu finalmente realizar a viagem que lhe trazia toda a inquietação e ansiedade perante a possibilidade da ida de avião para outro país. Por email comunicou o motivo do afastamento: Oi Grace, tudo bem? Estou mandando notícias, para informar que estou em Los Angeles, viu só, consegui, depois de alguns problemas de saúde familiar fiz minha viagem, estou curtindo minha filha. Mando abraços para todos do grupo, em especial aos que acompanharam o meu problema. E um muito obrigada pelo teu trabalho. Bj”
Bendegó,também deixou de participar no grupo, recebeu uma proposta de trabalho com horário incompatível à prática, mas ligou justificando sua desistência e agradecendo o apoio recebido durante sua breve passagem pela associação.
 Ross e Alpha Centauri se desvincularam do grupo, mas não comunicaram o motivo do afastamento, apesar dos emails enviados e ligações telefônicas que não foram retornadas. Assim como meteoros, com passagens iluminadas pela atmosfera terrestre, somos levados  a  acatar suas atitudes similares a desses corpos celestes que nos levam a pensar que seriam estrelas cadentes.

Se considerarmos a evasão no grupo de quinze pessoas, onde duas deixam de participar por questões de logística e outras duas por motivos ignorados, perfazendo um percentual de aproximadamente vinte e sete por cento, num período de seis meses, podemos depreender que a proposta é viável e que tem possibilidades de agregar cada vez mais pessoas, considerando que três participantes trouxeram familiares para conhecerem a atividade.
Toro (1991) discorre sobre os problemas individuais no trabalho em grupo, dizendo que o importante é viver as coisas mais que pensar, e que diante problemas particulares a Biodança não é autoritária, o que seria uma contradição ao método, possibilitando assim que participem as pessoas que assim o desejarem. 
Assim como Góis (1995) alerta que a Biodança avança no caminho de um pensamento crítico consequente e de uma nova ciência, evitando o senso comum e o dogmatismo, presente em sociedades que se constroem sob a égide do autoritarismo e da submissão às autoridades e às divindades.

4.6 -  A Metodologia Utilizada
As propostas vivenciais mantiveram-se dentro da possibilidade de integração motora, propiciando uma resignificação do caminhar sinérgico, fisiológico, com motivação afetiva e determinação.
Além dos jogos, para estimular a vitalidade e criatividade, foram empregados exercícios com a possibilidade de reciprocidade, para levá-los a perceberem as diferenças nos ritmos e harmonia entre os pares.

Outra proposta vivencial bastante utilizada foi a de reforço da identidade, com danças criativas e de deslocamento para potencializar a flexibilidade de cada um e desenvolver a capacidade de fluidez, assim como danças de extensão máxima e de elasticidade integrativa, com o propósito de libertar a rigidez muscular.  
Os movimentos segmentares foram empregados como forma de desbloquear as tensões recorrentes, assim como a respiração dançante. Nos encontros foi trabalhada a questão da rapidez e ansiedade nos contatos, criando possibilidades para encontros mais harmônicos e de conexão real com o outro.

As linhas de vivência da sexualidade e transcendência foram pouco utilizadas; apenas em datas comemorativas a transcendência foi melhor evocada. Estamos passando por um período em que está iniciando o estímulo a uma maior aproximação com afetividade, propondo carícias delicadas e progressivas com consequente resultado que levará a sexualidade. 






5 - UMA TECITURA VIVENCIAL


“Se o Homem é um poema inacabado,
 Cada indivíduo vai aflorando
Através de sua existência,
 O poema de sua própria identidade!”
(Rolando Toro)


   A psicologia, assim como a Biodança, traz em seus referenciais teóricos interligações com os processos vivencias de seus profissionais. A primeira estuda os aspectos inconscientes, quando o psicoterapeuta além de realizar uma formação acadêmica, necessita de um acompanhamento psicoterapêutico para poder mergulhar no inconsciente de seus pacientes.
   Rogers (1985) observa que as atitudes do psicoterapeuta estão interligadas com seus processos vivenciais, portanto, se não bem interpretados, poderão prejudicar a relação terapêutica por conceitos ou traumas sofridos. Esse autor postula que as atitudes e sentimentos do terapeuta são mais importantes que a sua orientação teórica, pois seus processos e suas técnicas são de menor importância no processo terapêutico,  pressuposto básico que o levaria ao seu autoconhecimento para poder realmente auxiliar no desenvolvimento de outras pessoas.  
Em Biodança a condição para realizar a formação, como professor dessa metodologia, é estar participando de um grupo regular, em que pelo menos tenha realizado um mínimo de 50 horas/aula.
No módulo do curso de formação de professores em Biodanza, Definição de Modelo Teórico, Garcia (2008) orienta que o facilitador, assim como as pessoas em geral, está imerso em igual dinâmica existencial. Portanto, sendo alguém que irá estimular o acesso das pessoas na dinâmica da identidade, não deverá estar preso à identidade limitante e predeterminada.   Isto referenda comunicado em última carta de Rolando Toro dirigida aos professores de Biodanza.
“La formación del Professor de Biodanza consiste esencialmente en descubrir una misión, transmitir el estado de gracia, mostrar nuevos caminos para ejercer el amor y despertar la conciencia iluminada (...) Se trata de um cambio de visión de nosotros mismos y del significado de la vida.(Toro, 2010)

  Baseada nessa premissa, considero significativa uma breve reflexão sobre os  caminhos por mim  percorridos até a descoberta  da Biodança. Por natureza, sempre fui inquieta. Minha mãe contava que precisou ficar um mês internada para que eu nascesse no tempo adequado. Hoje consigo refletir que poderia ser uma manifestação de minha vitalidade, desejo de viver intensamente e aproveitar o muito que a vida teria a me oferecer.
   A linha de vivência da vitalidade é essencial para o sistema Biodanza. Toro (2005) teoriza que em psicologia a vitalidade se expressa pela alegria de viver, motivação para a ação e força instintiva. Para a Biodança os indicadores de vitalidade poderiam ser resistência ao esforço, vitalidade de movimento, potência dos instintos.
   A infância foi normal para uma criança saudável, rotulada como arteira mas concentrada na aprendizagem, desejo de aprender sempre mais, passível de castigos e reprimendas por parte dos pais e professores, pois a inquietude perante os desafios era instigante.
Tendo em vista a lógica do método Biodanza poderia ser considerado como manifestação da criatividade, que se vincula com o exploratório e impulsos de inovação, característicos dos seres vivos. (Toro, 1991)
“A educação é a transformação que ocorre na convivência com os outros. Quando você nasce, não está sozinho, mas com outras pessoas e elas fazem parte de sua transformação. Nesse sentido temos que entender e valorizar que todos somos diferentes, e viemos de diferentes educações ou convivências. Porém, não estamos fixos ao que vivemos na infância. Ou seja, educação tem o caráter de plasticidade, vai se moldando sempre com as experiências que cada um vai vivendo.” (Maturana, 2013)

  Percebo que nesse período iniciou-se o processo de transmutação das potencialidades inatas, pois através de pessoas-critérios (pais, educadores) ocorreu o processo de aceitação condicional que, segundo Rogers (1976), acontece numa tentativa de receber e conservar amor, aprovação ou consideração. A criança renuncia a sua avaliação do que lhe é agradável para a avaliação externa, do que é melhor para ela, aprendendo com os outros valores pensados como seus, embora discorde, levando-a uma desvalorização de suas potencialidades.
 Na Adolescência os conflitos aumentaram, pois como todo o adolescente a sede  de novas descobertas e busca pelo prazer foram acentuadas, apesar das imposições dos pais: os namorados, as festas, os passeios, movimentos em busca de uma vida plena de alegria, com o prazer aflorando.
      Toro (2005) alerta que para vivermos  uma sexualidade saudável é necessário não haver uma fixação apenas no ato sexual e na genitalidade, pois a linha de vivência da sexualidade é muito mais abrangente, considerando que a aprendizagem rumo aos pequenos ou grandes prazeres é composta da alegria, sentimento, erotismo e de carícias, em eventos cotidianos.
 Já Stevens (1976) observa que na adolescência  durante o processo de auto conhecimento o jovem se vê dividido entre seus anseios e necessidade e oposição aos valores externos que lhe são incutidos. E que muitos desistem de lutar por seus propósitos acreditando ser mais fácil de acompanhar a maneira de ser dos outros do que fazer oposição.
Considerando esta possibilidade voltei-me para o trabalho, faculdade, casamento e formação de uma família, dentro dos modelos padrões para o início dos anos 80, época em que a Biodança começava a se consolidar como sistema no Brasil.
Góis e Cavalcante (s/data) contextualizam que no 1º. Congresso Latino-americano de Biodança houve na cidade Fortaleza em janeiro de 1981, após a primeira visita de Rolando Toro ao Brasil, uma grande aceitação dessa metodologia de trabalho, vindo a se consolidar, inicialmente no Nordeste, com uma boa expansão e potencialização de sua capacidade realizadora em várias cidades do país. Essa proposta inovadora provocou diversas reações por sua essência de beleza, o prazer de viver e a autenticidade em expressões como corporeidade vivida.
   Foi necessária uma experiência traumática para que minha vida tomasse outros rumos até o caminho do autoconhecimento e ressignificação de valores incorporados. Após ter optado por trabalhar no ramo bancário, em detrimento da formação acadêmica em ciências Biológicas, decidi pelo rompimento do casamento e por novas possibilidades de realização.
  Para Morin (2011), as crises favorecem as interrogações, estimulam toda decisão em busca de novas soluções, mas podem favorecer soluções neuróticas ou patológicas, pois a cultura psíquica nos lembra que não estamos no centro do mundo, nem  que  somos juízes de todas as coisas. Ela convida-nos a dialogar com nossas múltiplas personalidades que, por vezes se ignoram.
Voltei a estudar, desta vez fazendo a faculdade de psicologia, pois durante o período em que estive convalescendo por quase um ano, em decorrência de um acidente sofrido, senti falta de apoio psicológico para procurar um sentido na vida.
Franckl (1991) aponta que a busca de sentido na vida de um indivíduo é uma motivação primária, esse sentido é exclusivo e específico, pois precisa e pode ser cumprido somente por aquela pessoa. Somente a sua própria vontade de sentido assumirá a devida importância que satisfará sua vontade de sentido. Para esse psiquiatra, que passou um longo período de sua vida preso num campo de concentração, o ser humano é capaz de viver e até de morrer por seus ideais e valores. 
   Estava aí oficializado meu primeiro passo em busca de uma existência integradora que também auxiliaria outras pessoas em seus processos evolutivos. Evocava desta forma a afetividade, quando deixara de viver sem propósitos, afastada inclusive da religiosidade.
   Atualmente , quando os valores antigos estão esvaziados e as tradições são menos viáveis, May (2000) considera que o indivíduo vivencia uma maior dificuldade para encontrar a si mesmo. Por vezes, é necessária uma experiência que o retire se sua zona de conforto para deparar-se com seu dilema e então enfrentá-lo.
Já Góis (1995) entende a identidade como um fenômeno biológico e relacional que surge das sensações endógenas, precisa do outro e constitui-se como um paradoxo pois,  na mudança, o individuo permanece o mesmo e  só se faz presente na presença do outro.
Com isto, referenda o postulado por Toro (1991), no Tomo I, quando descreve a linha de afetividade como capacidade de perceber empaticamente o outro, capacidade de comunicação, restauração dos vínculos com a totalidade, atributos que têm característica de potencialidade individual, que precisam ser reforçadas ou desenvolvidas de acordo com cada personalidade.
     Mas como a vida não se apresenta com a linearidade que pretendemos, novamente surgiram obstáculos para alcançar os objetivos traçados, e devido a um colapso econômico no país, fui obrigada a suspender a faculdade, reorganizar minha vida, inclusive em busca de uma nova profissão que me possibilitasse o término do curso pretendido. Capra (2006) aponta a teoria dos sistemas dinâmicos que explora sistemas não lineares, reconhecendo que a natureza é inflexivelmente não linear.
Esse autor observa que na medida em que um ser vivo interage com o meio ambiente, ele sofrerá uma sequencia de mudanças estruturais, portanto,  ao longo do tempo formará seu próprio caminho individual de acoplamento estrutural. Este princípio vale para qualquer ser vivo, neste caso em minha experiência de vida.
   Nesta época iniciei o curso de técnica de enfermagem e precisei ressignificar valores abrindo-me para novas experiências, expectativas e algumas frustrações financeiras e de julgamento novamente por parte dos familiares, que hoje percebo como limitadores do meu processo de evolução humana.
Maturana (2013), quando discorre sobre ecologia humana, observa que autoestima é um esforço e o respeito por si mesmo é uma harmonia interna. Quando a primeira é como uma receita, em que é possível  obter por manuais,  o respeito por si mesmo é o momento em que se está no centro, gosta do que faz, tem desejos e sonhos para o presente, “pois o único momento que vivemos é o presente, o futuro ainda não existe e o passado já se foi.”
     Retomando esta trajetória de vida, percebo a flexibilidade que apresentei nas situações vividas, não sem sofrimento, mas conseguia certa fluidez, que para alguns era considerada como leviandade. Pois, após quinze anos trabalhando no ramo bancário, decidi por trabalhar no ramo hospitalar.  Vivendo com recursos da indenização e exercendo alguma atividade remunerada particular, fiz o curso que me capacitou a trabalhar no Centro Obstétrico de um Hospital.
   Do caos é que conseguimos energia para a transformação, pois a vida é imprevisibilidade, onde o foco do caos são as pessoas. Rotta (2014) alerta que o ser humano é o ser vivo mais completo, mais complexo, mais imprevisível e mais caótico. Portanto, precisamos nos compreender como sistemas complexos e perceber o poder desta complexidade.
Diante desta nova possibilidade profissional, situações que fugiram ao meu controle foram se apresentando, iniciei num novo relacionamento e, embora tivesse a convicção de que retornaria a faculdade brevemente, acabei ficando grávida e formando um novo núcleo familiar, agora com dois filhos e dentro dos parâmetros desejados por meus pais.
Acomodei-me à situação, resolvi dedicar-me ao trabalho e maternagem por algum período, pois a maternidade sempre foi uma característica presente em mim e priorizei  os cuidados básico na infância do filho mais novo e adolescência do mais velho. Hoje percebo que fui muito feliz por alguns anos, sem nenhuma inquietude a me atormentar.
No entanto, a vida reflete nossas inconstâncias e dentro de suas vicissitudes, acabou por intervir no relacionamento conjugal levando-me a pensar em liberdade e novas possibilidades de realização pessoal. Comecei então a perceber que minhas relações afetivas estavam limitadas, meus desejos cerceados e minhas esperanças reprimidas.
Novamente, retomei um processo doloroso de resgate da minha identidade, ao resgate de minhas potencialidades e autoafirmação perante todos os envolvidos. Quando reflito sobre estas situações vivenciadas é impossível não interligar com a “roda das transformações”, pois minha trajetória de vida, embora só tenha conhecido a Biodança aos quarenta e oito anos de idade, em muitas situações foi encaminhada como nessa possibilidade vivencial em que vamos saindo de algumas rodas para entrar em outras.
Terrén ((2008) considera nossas decisões existenciais de ordem instintiva, mas que sempre serão elencadas dentro da premissa voltada às três perguntas: “Que hacer? Con quién estar? E dónde estar?” Tais interrogações, quando atendem os desejos inconscientes, nos levarão a uma vida plena que respeitará os momentos de abertura, de fechamento pessoal, quando aceitar e quando não aceitar, quando nutrir-se do meio que nos rodeia e quando refugiar-se na solidão.
Nesta ocasião encerrou-se outra etapa rumo à nova possibilidade, retomada da faculdade de psicologia, agora num projeto de aposentadoria. Tornei-me uma pessoa respeitada, que finalmente segue em busca de seus ideais, fortalecida por suas convicções, deixando vínculos saudáveis pelos locais e pessoas que conviveu, assim como na Roda das Transformações, fechando de forma amorosa cada saída. 
Amizades foram sendo sustentadas nesta trajetória de vida, experiências partilhadas, afetos guardados e ideais respeitados. Aparentemente tudo fluía com relativa tranquilidade, até que, para testar meus propósitos e realmente me fazer perceber a grande força de vontade que havia dentro de mim, minha mãe adoeceu e morreu. Depois num período de menos de um ano, sua irmã,  minha tia que era como segunda mãe, também faleceu e meu pai, no ano seguinte, sofreu um AVC, deixando-o debilitado e passível de alguns cuidados mais delicados.
Entrei em depressão, na elaboração daqueles lutos que pareciam não terminar nunca, perdi a alegria e impulso vital, consegui terminar a faculdade com muito esforço. Afinal se parasse naquele período, acho que não teria forças para retornar. E um dia, quando conversava com amigos, vi a faixa promocional de Biodança. Como estava vivendo uma vida sem cor e calor, decidi procurar me informar o que poderia ser e em que poderia me beneficiar com a “dança da vida”.
Naquele abril de 2007 redescobri a menina inquieta que havia ficado adormecida enquanto a mulher guerreira lutava por objetivos, por sobrevivência, doava-se e se confundia em propósitos e amores. Ali iniciei novas amizades com  pessoas que partilhavam história de vida similar à minha: ninho vazio, sede de partilhar afetos, desejo de pertencer a um grupo que trouxesse ressonância ao meu período de vida.
Araneda (2012), em seu último livro publicado sobre Inteligência Afetiva, comenta que ela é promotora de significado existencial, novas constelações instintivas e vivenciais tornam-se potencializadoras no despertar da coragem, do prazer e motivações para viver. 
As músicas traziam paz interior, e me remetiam a trilha musical de minha vida, muitas delas reconhecidas e resignificadas, agora em ambiente facilitador. As vivências calavam fundo em minha alma desejosa por partilhar afeto, amorosidade e a vitalidade necessária para continuar vivendo com intensidade e sentido.
 “A vivência por ser comoção e, ao mesmo tempo expressão singular do mundo, é movimento sensível, é movimento do ser que em sua concretude, é corpo e gesto, é encontro, é dança, é animal tornado espírito enraizado.” (Góis, 1995. P.62)

No trabalho como psicóloga havia um comprometimento com o social, a aprendizagem e  comunidades socialmente desfavorecidas. Na psicologia comunitária descobri Cézar Wagner Góis como articulador do método de Educação Biocêntrica no nordeste, com Rute Cavalcante, teóricos que havia estudado na faculdade.
Dediquei-me a participar de encontros de Ação Social, de Biodança, de Educação Biocêntrica no Brasil e nos encontros latino americanos. Tornei-me uma biodanceira totalmente apaixonada pela proposta. Mas relutava em fazer Escola para ser  facilitadora, pois acreditava que aquele era meu refúgio, onde poderia aplacar as dores do contato direto com o sofrimento humano que encontrava na prática da profissão, em consultório e na comunidade.
Foucault (2014) diz que quem cuida de si eticamente, está cuidando do outro, pois cuidar de si mesmo não pode ser desarticulado de cuidar do outro; cuidar de si mesmo para ser melhor é garantir condições para  que o outro possa ser melhor. “Só posso ser livre se eu cuido de mim mesmo!”
A aprendizagem que acumulei ao trabalhar com pessoas foi indelével, seja no setor financeiro, na iniciativa privada, no ramo hospitalar, nos recursos humanos, na escola, como nos asilos de idosos, mas os recursos pretendidos com a prática da psicologia Humanista, por vezes me deixavam desejosa de mais possibilidades, de também levar alegria e afetividade àquelas pessoas que só dispunham da fala e de minha compreensão empática para minimizarem seus conflitos.
Araneda (2012) indica que a afetividade se refere especificamente ao que se ama aquilo que se manifesta subjetivamente como ternura, amizade, altruímos, amor universal, afinidade pela vida. E sua expansão é a liberação do afeto, num estado de amor infinito pela vida, pela natureza e pelas pessoas.

Curso para capacitação em zeladoria e portarias no SINDEF
Palestra no Lar da Amizade sobre Envelhecimento
Dinâmica de Grupos na Fundação Taurus sobre Relações Humanas 

Mas, inspirada na mensagem de Toro, a decisão que tomei foi baseada dentro de princípios éticos, humanitários e de uma possibilidade de conscientização político social.   
“Agora sabemos que não é possível nenhuma transformação social se não se mudam profundamente os sentimentos, quer dizer, os modos de vinculação com as pessoas e com o meio cósmico. A Educação atual não promove contatos, os atuais sistemas educacionais criam homens para o fracasso de todas as suas potencialidades.” (Rolando Toro, 1982) Mensagem aos alunos na 1ªEscola Nordestina.
Atividade de conscientização ao voluntariado na Parceiros Voluntários
Trabalho em Psicologia Escolar e Comunitária no IAPI

Diante destas demandas, depois de frequentar por quatro anos um grupo regular como participante de Biodança, decidi por uma maior transformação vivencial quando optei por realizar a Escola de Formação para Docente em Biodança. Diante desta nova proposta de trabalho, consegui agregar amigos, profissionais da saúde mental, estudantes de psicologia numa caminhada rumo ao desejo de seu idealizador: levar a Biodança para o maior número de pessoas.
Araneda (2012) aponta, atitudes similares, como dinâmica da bondade: na capacidade de transcender o ego, capacidade de identificação, comunicação, compaixão e empatia, revelando uma estrutura afetiva sã  e consciência ética.

Grupo de Estagiários de Psicologia na AportaRS e no Lar da Amizade

Hoje, em conjunto com um colega facilitador, oferecemos sessões de Biodança num Lar para idosos, e levamos ocasionalmente para outras instituições que também trabalham com esse publico. Partilhei vivências em grupos de voluntários, num serviço de atendimento a crianças e adolescentes e tenho supervisionado estágios de Psicologia Comunitária, junto a Faculdades de Psicologia, onde a prática da Biodança é partilhada nas vivências com a comunidade.


Atividade em comemoração ao mês do idoso no Amparo Santa Cruz/ Lar São Francisco

Grupo de Biodança para idosos e deficientes visuais no Lar da Amizade

O que mais posso falar sobre esta tecitura? Que a Escola de Formação me abriu possibilidades vivenciais e de autorrealização inesgotáveis. Que o fato de levar às pessoas afetividade, criatividade, vitalidade, sexualidade e transcendência é algo místico e indescritível, pois a rede de afetos que criamos e participamos nos torna dia após dia mais fortes e vigorosos, numa possibilidade infinita de oportunidades.
“Quando aprendemos a viver intensamente o presente, começamos a compreender a coerência do nosso passado e o significado transcendente de cada fato que se sucedeu em nossa vida. A partir disso, percebemo-nos capazes de superar o medo do futuro, adotando uma postura proativa diante de nossos projetos. Assim resgatamos a confiança em nós mesmos e em nossa capacidade de realizadores” (Toro, 1991) .



Escola Gaúcha de Biodança Em Santa Maria
Grupo de Formação da Escola Gaúcha de Biodança – EGB
Associação Gaúcha de Biodança – Formando redes participativas (Agosto/2014)

Assim como as estrelas no Universo, podemos promover ações de diferentes magnitudes em populações que estão carentes de atenção e cuidado, empregando os Sete Poderes da Biodanza, montando estratégias de reabilitação existencial relacionadas num conjunto coerente e científico, denominados por Toro: “La Música; La Danza Integradora; La Metodologia Vivencial; La carícia; La Regresión y El Trance; La Expansión de Conciencia e El Grupo” (Toro e Terrén ,2008).


“O mundo não me pertence, mas posso colocar coisas minhas nele.” (Góis, 2014)
CONSIDERAÇÕES FINAIS



    Ao término desse estudo me percebo refletindo sobre aspectos significativos nas relações humanas, dificuldades perante obstáculos, histórias heróicas de superação, afetividade, companheirismo,  com a música, dança e arte numa forma de  recompensa.
Pensando no Princípio Biocêntrico, observo que as vicissitudes apresentadas pela vida são inerentes ao desenvolvimento humano.  Todos os seres vivos enfrentam dificuldades e são capazes de superá-las dentro de seu habitat natural ou perecer, de acordo com as condições e suas possibilidades.
Apenas o ser humano, com sua capacidade limitada de entrar em contato com seu instinto natural distorcido pela própria humanidade, adoece psiquicamente e fica incapacitado por  desafios intrínsecos à sobrevivência dentre seus próprios semelhantes.
O método Biodança propõem possibilidades de resgatar o inerente ao indivíduo perante adversidades, levando-o a sublimar muito mais que seu processo existencial, mas a retomar a origem da espécie humana, com sua capacidade gregária e de conexão com o primordial, sublime e transcendente.
As doenças emocionais tornaram as pessoas dependentes de medicamentos e atreladas a diagnósticos. A fragilidade humana surge mediante a falta de amorosidade, de olhares afetivos, de cuidado, de atenção.
O lado bonito da vida acaba não sendo percebido numa sociedade consumista e detentora de valores que categorizam as pessoas por algum status que, em busca de objetivos, por vezes em detrimento de melhor qualidade de vida, as leva a não perceberem o  mal que lhes está sendo causado.
É necessário abrirmos mais espaços de afetividade, sem preconceitos, sem julgamentos, apenas de convivência harmônica entres as pessoas e os seres vivos que as cercam, resgatando o respeito e a tolerância entre as  espécies e a natureza. A possibilidade de formação de mais facilitadores de biodança poderá abarcar esta lacuna que foi sendo preenchida pelo vazio existencial,  adoecimento, medicalização e inconstância.
Nesse caso, considero oportuno contextualizar a diversidade de perspectivas no resgate do prazer de viver, tanto para aqueles que praticam a Biodança, como para os que a facilitam, pois o ato de servir de apoio no processo de crescimento pessoal de outrem, dignifica e enobrece, trazendo sentido à vida e desejo de variadas realizações.
Nas vivências propostas ao grupo que foi objeto de estudo, ficou claro para mim as manifestações de afetividade, de vinculação saudável entre os participantes, de  conscientização do sagrado, inclusive no resgate de importantes sequelas experienciadas pelos mesmos, que chegaram para tratamento em significativo sofrimento psíquico. Considerando os níveis de satisfação e contentamento do grupo, agora fica o questionamento de como poderemos levar mais subsídios às pessoas desassistidas economicamente, segregadas e em situação de vulnerabilidade social.
 Este desejo referenda Morin (2011), em seu livro sobre a Ética, quando  observa que o olhar sobre  ela deve levar em consideração que a sua exigência é vivida subjetivamente, mas que também deve-se perceber que o ato moral é um ato individual de religação com o outro, com uma comunidade, com a sociedade e com a espécie humana.
Estas possibilidades necessitam de articulações mais bem planejadas e criação de redes onde possamos de fato levar o método Biodança, a exemplo de outros países, às mais diversas áreas populacionais, dentro de um processo de Ação Social e resgate do sagrado nas diversas esferas sociais, educacionais, hospitalares e, quem sabe, até nas penitenciárias.
Retomando Capra (2006), na “Teia da Vida”, quando considera todos os seres vivos como membros de comunidades ecológicas ligadas umas às outras numa rede de interdependências, esta percepção ecológica profunda torna-se parte de nossa consciência cotidiana e emerge um sistema de ética radicalmente novo.
Ao colocar estas considerações percebo o quanto ficamos motivados e visionários quando influenciados pelos benefícios propostos pelo método. E me assola uma necessidade de colocar muito mais ideias e considerações, com o risco de transformar estas considerações, não em finais, mas em perspectiva das maravilhas que poderemos oferecer a população tão carente de afeto e atenção.
“Llegamos demasiado tarde para lós dioses y demasiado temprano para el ser. El hombre es un poema inacabado” (Heidgger in Araneda, 2012.p51)
Se nos propusermos a esta postura ética frente ao universo, poderemos também propagar o amor e aceitação incondicional dos seres, numa onda que, de certa forma, pode levar ao “Efeito Borboleta” apontado por Capra (2006), quando mudanças diminutas no estado inicial de um sistema levarão, ao longo  do tempo, a consequências em grande escala.
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___________ Aspectos Fisiológicos de Biodanza. InternationalBiocentric Foundation. Curso de Formação docente em Biodanza.
__________Aspectos Psicológicos de Biodanza. InternationalBiocentric Foundation. Curso de Formação docente em Biodanza.
__________ Definição e Modelo Teórico de Biodanza. InternationalBiocentric Foundation. Curso de Formação docente em Biodanza.
__________ Metodologia II, III, IV, V e VI. InternationalBiocentric Foundation. Curso de Formação docente em Biodanza.
__________Teoria da Biodança Coletânea de Textos - Tomos I e II. Organização LatinoAmericana de Biodança-ALAB, 1991.
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Consultas Internet:
 www.cosmobrain.com.br, junho de 2014.
www.aportars.org.br, junho de 2014.












Um comentário:

  1. Boa Noite Sra. Grace!
    Li o seu post e fiquei muito interessada no que aqui encontrei. Estou a fazer um trabalho académico no contexto da especialização em enfermagem de saúde mental sobre a ansiedade e transtorno de pânico. Será que poderia ter acesso ao documento em Pdf? (tentei encontrar no google académico mas não pareceu). meu e-mail é: anaf.svs29@gmail.com.
    obrigada desde já.

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